o papel aceita tudo
escreve
tira um pouco disso aí
arranca a voz que não tem voz pra falar pra alguém o que quer dizer
ou
que não tem para quem dizer
mas escreve dessa coisa estranha que arranca o peito
dessa fúria que não se contém dentro das mãos
escreve da saudade do que já foi
escreve da solidão que bate à porta de vez em quando
e que em outras noites, entra sem pedir
escreve da vontade de beber pra escapar do tédio
pra tentar trazer inspiração para…
…escrever
escreve sem pensar muito
só pra deixar correr no papel a tinta que não pode correr como sangue
deixa correr letra sobre letra
papel sobre papel
porque é mais difícil falar do que escrever
então escreve, seu filho da puta
não deixa guardado aí dentro essa mágoa
essa sede de sanar as dores daquilo que te levou a ser isso que é hoje
mas escreve
não faz sozinho
deixa pra alguém
deixa pra que no futuro alguém possa perceber aquilo que você um dia tentou deixar de ser
mas escreve
mesmo que não faça sentido naquele momento
mesmo que não tenha razão ou pareça exagerado
escreve, porque se ali fez algum sentido, é porque o seu corpo pedia pela escrita
então escreve com o coração
depois raciocina e corrige
mas a primeira versão é só com o coração
então deixa sair todo o esgoto
toda essa merda
toda a porra
toda a vontade de chutar o balde
de cuspir na cara
de socar alguém
deixa escapar tudo isso
escreve
bota pra fora
o papel aceita tudo
e nele você não pode se privar
escreve
mesmo que errando
mesmo que sendo injusto
só não seja com você
você é injusto consigo mesmo a vida toda
no papel, não seja
não hoje
não dessa vez

