ele
Tá lá no chão.
De olhos vidrados num horizonte perdido. De olhos perdidos sem horizonte algum.
Não enxerga mais o futuro que deveria ter.
Qualquer um da sua idade não teria muitas lembranças do passado, pois viveu pouco, aprendeu pouco, e o que valeria seriam as tantas décadas pela frente.
Mas ele não. Já viu de tudo um pouco. Mesmo querendo esquecer. Mesmo tentando fechar os olhos e se forçar a dormir. Impossível.
Sangue. Dor. Medo constante.
Esmola. Migalhas. O golpe na cara.
Não se lembra da escola. Foi pouco para lá. E foi tão cruel que preferiu não guardar nenhuma lembrança. Mas é estranho. Sempre que vê alguma criança com mochila nas costas, perto da hora do almoço, imagina que há lá dentro algo de especial.
Por vezes, perde a noção de tempo. Se guia pela chegada da noite. Pela ausência de luz.
Se guia pelo sol que começa a surgir e reduz o desconforto de mais uma noite fria, onde imerso em jornais sujos e recoberto por papelão rasgado, briga incessantemente contra o frio e o sereno que lhe castigam. Noite após noite.
Na época de frio chega a desejar o fim. Aliás, pensa sempre em dar um fim, mas o irmão menor espanta da sua mente a insanidade e, de alguma forma, o impede de desistir.
De farol em farol em farol em farol repete as frases decoradas sabe se lá desde quando.
O desrespeito é quase ininterrupto. Os xingamentos são frequentes, ao ponto de acreditar que ele é mesmo tudo aquilo que o dizem.
Sirene. Gritos. Fumaça.
Desespero. Fome. Angústia.
Seria por não ter rezado direito como ensinaram às outras crianças?
Seria pela cor da pele, agora escurecida ainda mais pelo contato diário com o sol?
Seria por não ter aceitado o serviço de oferecido?
Tem doze anos. Nunca vai entender o porquê.

