no descompasso
É muito doido pensar que as sensações, no momento em que ocorrem, são absolutamente singulares, tanto se comparadas a outras situações, quanto também – ou ainda mais – na perspectiva com os outros.
Há pessoas que encontro, que sequer imaginam o bem que me fazem. Elas jamais terão consciência da alegria que trazem e a forma como isso dura muito mais do que o abraço. Contudo, deve haver também quem se alegra incondicionalmente com a minha presença. Mas desatento que sou, não percebo essa intensidade e, fatalmente, não proporciono o devido retorno.
A grosso modo, esse descompasso da vida teria tudo pra ser um incômodo intermitente.
Mas não.
E não só não o é, como é justamente o contrário.
Quando compreendo que o afeto é algo absolutamente particular e único, me livro de qualquer carga que poderia depositar nos outros e nas situações, o que faz com que os momentos felizes sejam verdadeiramente reais e prazerosos, pois posso pautar todas as minhas relações pela honestidade – comigo e com o outro. E é só sendo fiel ao que sinto e também ciente de que o próprio sentir é sempre interior e mutável, que posso abdicar da cobrança, pois as relações passam a ser leves e surpreendentemente reais.

