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A Porta Para Mim Mesmo

Um dia, um velho de barba mal feita, sapatos surrados pelo tempo e de voz rouca e forte, bateu em minha porta. Eu estava ocupado, não me lembro bem com o quê, mas provavelmente com algo sem muita importância. Talvez ocupado com…

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a porta para mim mesmo

Um dia, um velho de barba mal feita, sapatos surrados pelo tempo e de voz rouca e forte, bateu em minha porta. Eu estava ocupado, não me lembro bem com o quê, mas provavelmente com algo sem muita importância. Talvez ocupado com as minhas habituais inutilidades, como vagando por uma rede social ou algo tão dispensável quanto. Certamente não estava lendo um bom livro. Tampouco conversando com alguém sobre algo útil.

Relutante e à contragosto, levantei-me, fui até a porta e a abri. Minha falta de entusiasmo poderia ser vista a léguas de distância, mas para minha surpresa, este velho maluco conseguia ter um semblante ainda mais triste. Eu não consigo descrever bem a imagem estampada no rosto dele, mas era a expressão mais pesada e inanimada que eu havia visto até então.

Com sua voz grave ele me pediu alguns minutos, dos quais não pude negar. Sentou-se comigo à varanda, de onde podíamos avistar um grande gramado, mas de pouca vida, assim como o próprio homem.

Após uma longa pausa, ele pigarreou e começou a falar. Contou-me do passado dele, onde ainda jovem, sentia muito medo das coisas e, diante do medo, parava. Disse-me que não lembrava a última vez que riu até a barriga doer e sequer se recordava de algum dia ter cantado alto tomando um banho de chuva, mesmo que isto depois lhe levasse a voz e deixasse um resfriado. Em contrapartida, eram bem vivas as memórias das vezes em que se aborreceu por pequenas coisas em seu cotidiano, de quando xingou alguém no trânsito, de quando levantou a voz ou das situações em que foi ríspido com alguém sem necessidade, recriminando, sendo que poderia aceitar. Ou ainda, das vezes que virou o rosto, quando poderia sorrir.

Ele me falou dos amores que não viveu, porque permitiu que uma mágoa do passado formasse uma casca em seu coração. Quando derramou uma lágrima em minha frente, não pode esconder que isto ainda causa dor.

Ele lamentou as boas palavras que poderia ter dito quando se despediu de alguém ou no momento em que conheceu. Lamentou o riso cessado, o choro ressecado e o coração amargurado. Pediu desculpas pela insensibilidade que aprendeu a viver em função das pancadas do cotidiano, onde aqueles que sentiam fome ou frio já faziam parte do cenário.

Lembrou-se dos bons conselhos que exclamava, mas que se contradiziam com os maus exemplos que dava. Também de quando reclamou do café requentado ou sem açúcar, do cachorro que latia demais, da música de má qualidade, do pneu que furou, do filme que não passou.

Lembrou-se da vida que não viveu enquanto se queixava por aquilo que não poderia mudar. Recordou-se de ansiar por fortuna, mas não se sentia um afortunado por ter uma família e alguns bons amigos. E lembrou-se também de que sobreviveu por bastante tempo sem se dar conta de que sobrevivência não era vida.


O velho homem mantinha a mesma expressão desde que eu abri a porta.           Ele se curvou, deu um gole no café que eu servia enquanto o escutava e depois me olhou nos olhos. Eu desviei o olhar.

Após um longo silêncio, embriagado com o meu pesar, ele colocou as mãos nos braços da cadeira, como um auxílio para se levantar, e caminhou até a porta.

Após alguns passos ele olhou para trás ainda com o mesmo semblante e acenou esboçando um agradecimento por eu ter disposto de alguns minutos do meu precioso tempo. Depois partiu.

 

 

Às sete horas o despertador tocou. Levantei-me, sentei na cama e, como em um filme acelerado, todo o sonho que tive naquela noite se repetiu em minha lembrança. A imagem do velho permanecia. Suas palavras ecoavam.

Era hora de levantar da cama.
Era tempo de despertar para a vida.

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