impenetrável
O que faço eu, capitão dessa nau que navega sem rumo, por entre ventos e trovoadas que balançam, balançam e balançam essas velas remendadas e amareladas pelo tempo?
O que faz o destino, que em seu recôndito montanhoso esconde as cicatrizes de uma solitude embriagada em medo e angústia de um triste fim dos apaixonados?
O que se faz da cidadela, rochosa e protegida que aos poucos foi ruindo, ruindo e ruindo diante das guerras frias que congelaram o amor e a paz?
O que fazem eles, inúteis seres descrentes de um ser maior que olharia por nós, deixando tantos outros nós carentes e sozinhos com suas súplicas inaudíveis em meio a vossa indiferença?
O que fazemos nós, ínfimas criaturas arrasadas pela perda da visão, da compaixão e da honra, galgando de galhos a migalhas por uma sobrevivência medíocre?
O que se faz dessa Terra, gigante e impenetrável planeta água que tem sede daquilo que o tempo não traz de volta, que não volta mais, que se desfaz do que nem se sabe mais que falta faz?
O que se faz da fúria, da dor, da raiva que não cessa, da hora que não chega, do medo que não passa e da bala que atravessa, vivendo nessa redoma de conveniências sociais à espera de alguma coisa, ou de qualquer coisa?
O que se faz com tudo, quando não se é capaz de lidar nem consigo mesmo, comandante de um barco de casco podre, que tristemente sente a água a encharcar os pés e nada faz, porque não é sequer capaz de aprender a nadar?

